Governo demite chefe da inspeção do trabalho por caso BYD
Luiz Felipe de Mello foi demitido após incluir a BYD na lista de trabalho escravo. A medida levanta críticas sobre interferência política na fiscalização.
O secretário de inspeção do trabalho do Brasil, Luiz Felipe Brandão de Mello, foi exonerado do cargo após a inclusão da fabricante de veículos elétricos BYD CO LTD-H no cadastro de empregadores acusados de submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão. Segundo fontes próximas ao assunto, a demissão ocorreu após Mello desobedecer uma ordem direta do Ministro do Trabalho, Luiz Marinho, para manter a montadora da China fora da chamada \"lista suja\".
A demissão, oficializada no Diário Oficial da União, é o mais recente ponto de atrito em uma crise entre o governo e os inspetores do trabalho, que tradicionalmente operam com independência técnica no combate a abusos laborais. A associação nacional da categoria, Anafitra, criticou duramente a medida, afirmando que a exoneração enfraquece a fiscalização e compromete a eficácia da lista, considerada uma ferramenta fundamental no setor.
A demissão do secretário sinaliza uma escalada da interferência política nas inspeções do trabalho.
O foco na BYD surge após um caso em 2024, no qual 163 trabalhadores chineses, empregados por uma subcontratada, foram encontrados trabalhando na construção da fábrica da montadora em Camaçari, na Bahia, sob condições descritas pelas autoridades como análogas à escravidão. O escândalo impactou a reputação da empresa e atrasou as obras em seu principal mercado fora da Ásia. A BYD não respondeu aos pedidos de comentário, mas afirmou anteriormente que desconhecia qualquer violação até os relatos da mídia no final de 2024.

De acordo com as regras governamentais, a lista de abusos trabalhistas deve ser atualizada a cada seis meses. Fontes indicam que Marinho instruiu Mello a não incluir o nome da BYD sem apresentar uma justificativa técnica para o pedido. Dois dias após o prazo de atualização, a justiça concedeu uma liminar à BYD removendo-a temporariamente do registro, enquanto uma decisão final ainda é aguardada.
A BYD possui laços estreitos com o atual governo brasileiro, tendo inclusive contado com a presença presidencial na inauguração de sua fábrica em outubro. Além do impacto à imagem, as empresas listadas no cadastro de abusos ficam impedidas de acessar determinadas linhas de crédito em bancos brasileiros. No ano passado, o ministro Marinho já havia realizado revisões finais incomuns em investigações para barrar a inclusão de certas firmas, incluindo uma unidade da processadora de carnes JBS NV-A. Mello teria expressado oposição a essas decisões anteriores, e a recusa em obedecer no caso da BYD foi vista como o estopim para sua saída.











